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Postado por em 5 agosto, 2015 em Artigos Yoga | 2 comments

Caminhada Terapeutica: Uma Vivência Bioenergética e Reichiana

Caminhada Terapeutica: Uma Vivência Bioenergética e Reichiana

Essa é uma prática muito interessante que vou compartilhar através do artigo do Prof. Leonardo José Jeber.

Uma visão abrangente inspirada nos ensinamentos de Wilhelm Reich e Alexander Lowen.

Lá vai o artigo que primeiro contextualiza a concepção de corpo e de mundo que embasa o exercício e no segundo momento ensina o exercício propriamente dito:

C A M I N H A D A T E R A P Ê U T I C A: Uma vivência bioenergética e reichiana – Prof. Leonardo José Jeber

Só quando o homem reconhecer que ele é fundamentalmente um animal,

ele será capaz de criar uma verdadeira cultura. (Wilhelm Reich)

A graça animal chega aos humanos quando, em vez de maltratar o nosso corpo e interferir com o

funcionamento da nossa inteligência animal inata, nós nos abrimos para ‘os benefícios do sol e para o

sopro do ar’. (Alexander Lowen)

Essa caminhada é denominada terapêutica porque pretende atuar como uma contribuição à

profilaxia das neuroses. Sua principal finalidade é prevenir ou minimizar os processos de

encouraçamento psíquico-somático, isto é, estases ou bloqueios energéticos no organismo, que

impedem o fluxo de energia que ocorre por meio das correntes plasmáticas em todo o corpo. O

principio de funcionamento natural, a lei natural da função orgástica e bioenergética do organismo foi

descoberta por Wilhelm Reich e se apresenta na fórmula tensão-carga-descarga-relaxamento, que é

a base de orientação dos movimentos propostos durante a caminhada. Trabalhando-se sobre o

somático trabalha-se também sobre o psíquico, pois existe uma identidade funcional entre o psíquico

e o somático, o que cria uma unidade antitética de funcionamento da energia em nosso corpo, ou

seja, uma unidade psicossomática. Wilhelm Reich, pioneiro no trabalho com corpo no campo

psicológico, vislumbrou a possibilidade de uma educação, especialmente para as crianças, que

contribuísse para um estado de saúde psíquica por meio da prevenção das neuroses.

Através de meu trabalho na formação de professores de Educação Física, percebo que há por

parte de alguns estudantes e futuros professores de Educação Física, um certo estranhamento, ou

uma certa preocupação, num primeiro momento, quando afirmo que uma atividade física tem uma

função terapêutica. Na década de 80, a Educação Física esteve submetida e bastante influenciada

pelos conteúdos e princípios da psicomotricidade, o que pareceu prejudicar a construção de uma

identidade e legitimidade apropriadas a esta área do conhecimento. Por isso o questionamento e o

estranhamento a respeito da dimensão terapêutica da Educação Física têm seu sentido. O que

podemos dizer é que uma atividade física, ou a Educação Física tem múltiplas funções tais como:

cultural, social, mental, física, psicológica e outras possíveis. Isso porque o ser humano que faz

atividade física é um ser formado de múltiplas dimensões e instâncias, e aqui estas funções são

horizontalmente importantes, não havendo uma hierarquia entre elas, pois elas atuam de forma

integrada, a não ser que o professor que ministra a atividade determine um foco dimensional a ser

tratado e alcançado. Talvez a função terapêutica da atividade física, numa perspectiva reichiana seja

mais recente no meio educacional e no meio da Educação Física, mas não por acaso. Os dilemas e

problemas que atingem o ser humano no contexto social de hoje estão a exigir a construção de novos

sentidos e significados para a educação e para a Educação Física. Neste sentido, a educação pode

contribuir também com um processo de enfrentamento das questões físico-emocionais que levem o

individuo a processos de autoconhecimento e de desencouraçamento psicossomático. A dimensão

terapêutica pretende contribuir com um processo de cura diante de tantas doenças que atingem o ser

humano na atualidade, uma vez que o ser humano e suas doenças psicossomáticas se apresentam

na vida escolar. Parece-me que essa é uma perspectiva nova que se apresenta para educadores em

geral. Poderíamos falar que a educação tem uma dimensão terapêutica assim como a terapia ou

psicoterapia tem uma função pedagógica, ou educativa. Educação não é terapia, mas pode ter uma

dimensão terapêutica. Essa é uma perspectiva holística da educação para o trato de um ser humano

inteiro e que clama por ser assim reconhecido e tratado.

A caminhada terapêutica pode ser feita num ritmo lento, como um passear, ou pode ser feita

num ritmo intermediário entre o passear e o caminhar apressado. Também pode ser feita num ritmo

rápido e veloz (sem se confundir com uma pressa ansiosa), mas desde que não produza um estado

de tensão/desprazer no corpo. Em qualquer dos ritmos, a sensação de leveza e fluidez dos

movimentos e do corpo deve ser perseguidos e mantidos. Para caminhar rápido faça

intencionalmente movimentos de maior amplitude com seus braços ao lado do seu corpo.

Usando elementos da terapia corporal reichiana, da Análise Bioenergética e de técnicas

esportivas, a caminhada terapêutica propõe-se como uma atividade que possibilita o desbloqueio das

tensões e um estado de descanso durante o movimento e a atividade. Também é uma forma de

trabalhar o corpo que desenvolve a sensibilidade sinestésica através do desenvolvimento da

A idéia principal é respeitar o ritmo da pessoa, trabalhar gradualmente suas dificuldades,

possibilitar que o caminhar terapêutico seja, ao mesmo tempo, uma atividade revitalizante e um

processo de descongelamento ou de desencouraçamento das tensões no/do corpo.

Durante a caminhada mantenha seu corpo relaxado. As pernas são o principal segmento

corporal em exercício. Elas nos mantêm de pé e em coordenação durante o caminhar. No entanto

todo o corpo está em movimento. Os segmentos do corpo devem estar em relaxamento, sem estar

frouxos, mantendo seus tônus basal harmonizado com o movimentar-se.

Durante a caminhada tome consciência de seu corpo. Procurar transformar cada tensão

percebida em estado de relaxamento. Procure percorrer seu corpo com sua capacidade de percebê-

lo através das sensações sinestésicas. Faça isso, da cabeça aos pés, buscando um estado de soltura

Também durante a caminhada, sempre que necessário, expresse espontaneamente suas

sensações corporais, desagradáveis ou agradáveis, através de sons emitidos durante a expiração do

ar. Geralmente um som de a aberto e longo favorece esse objetivo. A expressão sonora aumenta

nossa respiração profunda, o que é benéfico para maior oxigenação do organismo. Apenas tome

cuidado para não hiper-ventilar, porque o excesso de oxigênio no organismo pode produzir enjoo e

Durante a caminhada faça alguns movimentos que podem ajudar a soltar as tensões do corpo e a

descarregar sensações de desconforto. São alguns tipos de alongamentos que você pode fazer

enquanto caminha. Após cada movimento perceba a área corporal trabalhada e verifique se ela está

mais relaxada. A sensação de prazer te indicará o estado de relaxamento.

As possibilidades apresentadas abaixo são um roteiro e uma seqüência flexível que você pode

utilizar conforme você vai percebendo seu corpo durante a caminhada. Para isso, é importante que

você se mantenha em contato consigo mesmo por meio da autopercepção de seu corpo através das

suas sensações corporais. Use os exercícios abaixo na seqüência que mais se adequar às suas

necessidades, conforme você vai se sentindo, conforme você vai entrando em contato consigo

Vejamos algumas possibilidades:

1. Durante toda a caminhada tenha consciência dos seus “Pés-no-Chão”. Não ande com as

pernas rígidas. Ande com pernas firmes e flexíveis. O bom contato com os “Pés-no-Chão”

(Grounding) ajuda você a ficar presente e inteiro no que você está fazendo. Assim você se

torna atento e alerta a si e ao ambiente que o rodeia.

2. Abra bem seus olhos e sua boca, faça algumas caretas e expressões emocionais de alegria,

tristeza, raiva, medo, amor, etc. Movimente sua boca como se estivesse mastigando um

chiclete para aliviar as tensões em torno dos lábios.

3. Passe suas mãos no rosto como se você estivesse lavando-o. Em seguida, passe as mãos

massageando seu rosto, ao redor dos olhos, sobrancelhas, testa, toda a área da mandíbula,

queixo, orelha e nariz. Faça de forma suave e alterne para mais vigorosa.

4. Massageie seu couro cabeludo usando as pontas dos dedos de suas duas mãos. Depois, com

as duas mãos fechadas, use os nós das articulações dos dedos para massagear sua nuca e

seu pescoço. Passe os nós dos dedos de cima para baixo, na nuca e no pescoço com um

pouco de pressão, mas sem se machucar.

5. Movimente sua cabeça, devagar, para um lado e para o outro. Faça isso apreciando a

paisagem do local onde você caminha. Faça com seus olhos vejam todo o percorrer do

espaço enquanto você movimenta sua cabeça. Controle para que os olhos não sobressaltem

e se harmonizem com o movimento de virar a cabeça.

6. Movimente sua cabeça, devagar, para cima e para baixo, fazendo o movimento do “sim”.

Efetivamente você pode falar sim, durante o movimento. Aproveite e escute a qualidade de

sua expressão vocal. Que sentimento ela expressa: assertividade ou vulnerabilidade?

7. Suspenda seus ombros como se você quisesse encostá-los nas suas orelhas e os mantenha

assim durante um tempo e quando não for mais possível sustentar, solte-os completamente e

sinta o relaxamento. Não se esqueça de junto com a soltura dos ombros expressar um som de

alivio da tensão. Pode ser mais uma vez um a aberto e longo

8. Faça vários tipos de movimentos com seus braços. Estique-os acima da cabeça, alongue-os

acima, juntos ou alternadamente, como se você estivesse tentando agarrar numa árvore uma

fruta que você gosta muito. Estique cada um dos braços lateralmente como se houvesse

pessoas te puxando pelos braços, cada uma de um lado. Outra opção é colocar os braços à

frente do corpo como se você estivesse tentando agarrar alguma coisa. Estique, agarre, e

depois puxe para você. Use sua imaginação para movimentar-se como um gesto expressivo

de sentimento e emoção.

9. Movimente seus punhos de forma variada. Para baixo e para cima, circulando-os e outros

movimentos que você conseguir criar.

10. Trabalhe também com as mãos como um todo. Feche bem as mãos apertando os dedos,

como se você estivesse apertando alguma coisa e depois solte e sinta o alívio. Outra forma é

separar e juntar os dedos com movimentos laterais. Separe ao máximo um dedo do outro e

depois junte, apertando um dedo contra o outro. Outra possibilidade é fazer um movimento

ritmado de abrir e fechar as mãos como uma pulsação do coração que bombeia nosso

11. Como se estivesse fazendo uma oração, junte suas palmas da mão e pressione uma contra a

outra. Deixe essa pressão se expandir das mãos em direção aos braços até começar a vibrar.

Relaxe e alivie quando chegar no seu limite.

12. Agora dê socos no ar. Como se você fosse um lutador de boxe, dê socos no ar mantendo os

dois braços erguidos. Também durante o movimento permita a expressão de sons. Esses

movimentos ajudam a expressar nossa agressividade acumulada.

13. Projete seus ombros para trás, como se você tivesse uma bolinha de tênis de mesa nas suas

costas e a estivesse apertando para não a deixar cair. Assim você abre seu peito em direção

ao mundo. Depois de algum tempo, relaxe e faça o contrário. Projete os dois ombros para

frente como se você quisesse tocar um no outro, abrace-se durante um tempo, cruzando os

braços sobre si mesmo. É aconchegante e caloroso. Aperte-se e relaxe de uma vez. Lembre-

se dos sons de alívio.

14. Trabalhe agora a sua respiração de forma intencional. Como se a sua barriga fosse um balão;

encha e esvazie seu abdômen algumas vezes. Inspire o máximo que puder, e expire o

máximo que puder. Se sentir necessidade coloque uma das mãos sobre o abdômen para

ajudá-lo a perceber os movimentos.

15. Faça a respiração do gato. Inspire o máximo que puder pelo nariz com a boca fechada e, na

hora de soltar o ar, faça-o mostrando os dentes como num sorriso. A passagem do ar por

entre os dentes cerrados produz um chiado parecido com o de um gato rosnando. Faça

algumas vezes. Quando você solta o ar e sai também pelo nariz. Assim, esteja preparado

para liberar secreções pelo nariz. Se preferir carregue consigo alguns lenços de papel para

16. Faça um pouco da chamada marcha atlética de forma que você movimente intencionalmente

os seus quadris para um lado e para o outro. Foque sua atenção nos movimentos dos quadris

e sinta que você tem mesmo quadris fortes e vivos.

17. Ande promovendo um pouco mais de flexão do joelho. Você vai subir e descer o nível do seu

olhar cada vez que permitir um instante de maior flexão nos seus joelhos. Durante a

caminhada observe sempre seus joelhos. Não permita que as pernas fiquem rígidas e

travadas nos joelhos. Mantenha sempre um grau de flexão nos joelhos. Isso contribui com o

fluxo energético subindo e descendo em seu corpo.

18. Durante a caminhada relaxe mandíbula (deixando os lábios entreabertos), ombros, abdômen

e nádegas. A tendência é contrair essas musculaturas o que consome energia

desnecessariamente. Crie outros movimentos que lhe agradar ou que você precisar. Repita o

que você achar necessário. Ao final sinta o efeito que essa movimentação expressiva

proporcionou ao seu organismo e à sua pessoa. O objetivo é promover relaxamento, leveza e

fluidez em seu corpo, em você.

A caminhada terapêutica visa restituir a você, que é seu corpo a capacidade de sentir-se. Um

corpo que sente é um corpo vivaz, vibrante, radiante, e cheio da vitalidade essencial para a qualidade

da nossa existência. Não ande como um robô (mecanicamente). Não ande como um atleta de

competição (você não precisa vencer ninguém). Não ande como um/a top-model na passarela (não

se trata de expor o corpo numa vitrine). Ande como um animal (ser que tem anima/animus, que é

animado, tem disposição, potência) em profundo contato com sua natureza pulsional. Assim você

restitui sua graciosidade e espontaneidade de ser vivo em profundo contato com seu corpo. Segundo

Alexander Lowen, o pai da Análise Bioenergética e continuador do trabalho corporal de Wilhelm

Reich, a graciosidade é a base da espiritualidade do corpo.

ALBERTINI, Paulo. Reich: a história da idéias e formulações para a educação. São Paulo: Agora,

BEDANI, Ailton. A corrida terapêutica. In: www.org2.com.br (acesso realizado em janeiro de 2003).

COBRA, Nuno. A semente da vitória. São Paulo: SENAC, 2002.

LOWEN, Alexander. A espiritualidade do corpo. São Paulo: Cultrix, 1995.

LOWEN, Alexander & LOWEN, Leslie. Exercícios de bioenergética. São Paulo: Agora, 1985.

REICH, Wilhelm. A função do orgasmo. São Paulo: Brasiliense, 1995.

Leonardo José Jeber: Professor de Educação Física da Escola Fundamental do Centro

Pedagógico/UFMG; Mestre em Educação/UFMG; Terapeuta em Análise Bioenergética/CBT pela

Associação Brasileira de Análise Bioenergética de Belo Horizonte. Professor das Disciplinas

Optativas: “Corpo, Movimento e Energia” na EEFFTO-UFMG; “Por uma Pedagogia do Prazer” e

“Teoria da Psicologia Política de Wilhelm Reich aplicadas à Pedagogia e Licenciaturas: a Educação

como Liberdade e Prazer, no fluxo na Energia Vital” na FaE-UFMG; Membro da ONG “Ser em

si”/Centro de Estudos da Energia Material Humana. E-mail para contato: leojeber@gmail.com

Prof. Leonardo José Jeber

Prof. Leonardo José Jeber

2 Comments

  1. Interessante…

  2. Muito interessante,o professor Leonardo José ,trabalha em qual cidade e estado ,gostaria de conversar com voçe sobre seu trabalho !

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